Jesus e o porque da cruz (Parte 3)

Leia também: Jesus e o porque da cruz (Parte 1) e Jesus e o porque da cruz (Parte 2).

 

Com a suplantação de diversas dessas ideologias sem muito apelo popular (o mitraísmo, que por exemplo, não admitia mulheres) e de crenças discordantes, veio a ascensão do cristianismo primitivo. Isso depois de um tempo despindo-se de uma boa parte suas raízes, e agora pontuado com traços de outras crenças, como a admissão de um deus humanizado, vivo em carne: Iesus Khristós, o tal Jesus da posteridade.

É gritante que essa ideia de um novo deus rivalizando com a figura do imperador, não iria agradar as lideranças romanas. No entanto ela seria determinante para a ‘sincretização’ com a fé vigente. As massas aceitariam muito mais a figura de um mártir e dos eventos construídos (ainda que fantásticos) em torno de seu sacrifício, que a de um deus não personificado, muito menos a de seus imperadores, meramente homens.

Que a cruz era o instrumento maior de tortura e humilhação dos romanos isso não é novidade. Entretanto, usar da cruz como símbolo e pôr seu deus-mártir caindo ante a opressão romana, ressurgindo vitorioso da morte, e ainda prometendo uma vida nova e eterna aos seus seguidores, mediante a negação do governo dos homens (Roma e seu imperador) abraçando o “Reino dos Céus”, era novo e sim revolucionário!

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A ideia do Jesus histórico – O problema em sustentar a historicidade de um mito aparente

Evidências de ritos cristãos ‘pré-existentes’ matam a ideia de um Jesus dito histórico. Muitos partem do princípio de que houve um homem, chamado Jesus, nitidamente um reestruturador dos códices judaicos. Infelizmente, não há pistas contundentes desses eventos. A ideia de um deus encarnado só surgiu em meados do século III, com a institucionalização dessas crenças por Roma.

Previamente havia a ritualística de Chrestus e os mitos do herói conquistador Yehoshua, transliterados Cristo e Jesus. Incrível, mas inúmeros foram os cristãos que foram perseguidos por negar a teoria de um Cristo que se fez homem carnal. Tudo parece provir de intenso processo de sincretismo, ora derivada naturalmente do contato entre os povos, ora por mera imposição dos governos.

Se tivermos que sustentar a ideia de um Jesus histórico, o mais ponderado seria admitir que houve uma construção de uma entidade, de caráter ‘histórico’, sobre a histórias de dezenas de outros. O mito do messias descrito como redentor do povo hebraico do domínio assirio, e os diversos candidatos a esse posto entre os séculos I AEC e I EC dão a ideia sustentação mínima.

Dois desses expoentes são Apolônio de Tiana e Simão, O Mago. Historicamente bem mais apanhados que o personagem dos Evangelhos, é descrito, e por diversos autores, como esses homens eram dotados de poderes nitidamente místicos e como, em diversos aspectos, se aparentam de maneira perturbadora com Jesus Cristo, de sua construção até realizações. Coincidência?

Jesus e o porque da cruz (Parte 2)

Leia também: Jesus e o porque da cruz (Parte 1) e Jesus e porque da cruz (Parte 3).

 

Chrestus, chamado Mestre da Justiça, cujo culto data desde séculos antes da EC, é um “deus-mártir-solar”, típica mitologia derivada de diversas tradições anteriores, como persa, grega e principalmente egípcia. Enxertada de vários elementos do platonismo, originários de costumes helenísticos, no entanto com bases judaicas bastante sólidas. Podemos dizer que a crença era basicamente judaísmo não ortodoxo.

Roma nesse ínterim fervilhava de inúmeras novas religiões, com ideologias e ritos dos mais diversos. Ao contrário do que se pensa, os deuses romanos clássicos há muito estavam em processo de mitificação, como sempre ocorre com religiões em que perdemos o interesse. O mitraísmo do deus persa Mitra, o judaísmo do deus hebreu Yahweh, e o ‘cristianismo primitivo’ do deus Chrestus, eram só algumas dessas ideologias.

Não se sabe ao certo o quanto da crença em Chrestus o cristianismo ancestral absorveu ou se o próprio cristianismo não seria a antiga crença sincretizada e remodelada no decorrer dos anos. O problema com essa religião primordialmente era de que esta não se firmava em nada além de ideias e não em eventos. Esse tipo de crença começara a cair descrédito, romanos tinham na figura do imperador deus em pessoa.

Jesus e o porque da cruz (Parte 1)

Leia também: Jesus e o porque da cruz (Parte 2) e Jesus e porque da cruz (Parte 3).

Para entender o porque do personagem central da maior religião monoteísta da atualidade ter que ser sacrificado em uma cruz romana, é preciso despir-se do senso comum e tentar entender com bom senso três conceitos primordiais, mas muito simples: a importância da figura do imperador, a política e a religião do estado romano durante os primeiros séculos da EC, e a estrutura religiosa dos povos essênios.

Primariamente, vamos estabelecer o seguinte: tudo que é descrito aqui é o que temos de fontes históricas confiáveis, e só. Nada de mitos, nada do bizarro senso comum. Caso contrário voltemos aos livros do ensino fundamental de escolas públicas, que descrevem absurdos como o “descobrimento” do Brasil em 1500, e a heroica “declaração de independência” com o grito as margens do riacho Ipiranga em 1822. Isso é sério!

Historicamente não há evidência que sustentem a existência de um Jesus histórico, isso é fato até então! O que temos são as descrições (anedóticas) dos Evangelhos, inúmeros textos de historiadores dos séculos I e II grosseiramente adulterados (vide Flávio Josefo e seu Antiguidades Judaicas), e as típicas confusões sincréticas do personagem com outra divindade muito mais antiga, o popular deus dos essênios, chamado Chrestus.