Roberto Gómez Bolãnos – Um esclarecimento, um elogio, uma crítica e um adeus

Roberto Gómez Bolaños se foi, e deixa um legado de humor sádico, ríspido e mesmo controverso, de uma genialidade única, ironicamente confundida ou ‘colorida’ como inocente. Paciência, não é bem assim que se faz humor, ao menos não é uma fórmula com a durabilidade e o alcance que o eterno Chespirito seguia.

Chespirito, seu apelido desde o humilde início de carreira, é um diminutivo em castelhano para o nome da maior figura do drama moderno, William Shakespeare. E como o dramaturgo de Stratford-upon-Avon, o pequeno escritor da Cidade do México, era único no trato com as palavras, do crítico ao descontraído.

Observe que a ‘graça’ de seu texto não estava na “inocência”, como te dizem. O humor bem escrito tem camadas. Ali há escárnio, agressão, etc, mas estilizado. Parte de sua genialidade reside em um texto atemporal e de um alcance que só acha precedentes em Buster Keaton, e, em Charles Chaplin (escrevo como fã, sinto).

Como você deve saber toda piada requer uma “escada”, (vide os Trapalhões) vai da situação, do estereotipo estar em sincronia com o público. Chaves e Chapolin, tem vários desses, há a viúva falida e cega de seu passado de riqueza, há o bandido de cicatriz no rosto, há o médico idoso, incômodo – e nitidamente senil.

Bolaños (a exemplo do faz hoje a Pixar) fazia um humor solto, que se acomoda como um líquido no recipiente, despido de amarras sociais. O mexicano criticava desde os ‘status quo’ vigente de seu tempo, ao mesmo tempo em que ‘pintava’ a sociedade hedonista e pseudo puritana que havia de vir. Bolaños era sim um profeta.

Humor politicamente incorreto versus “chá de mordaça” governamental (Parte 2).

Leia também: Humor politicamente incorreto versus “chá de mordaça” governamental (Parte 1).

É justamente por não ‘cortar rédeas’ que o humor é a melhor ferramenta de crítica política e social já concebida . Como toda arte, o humor é relativo, aqui não há feio ou belo, chato e sem graça ou inteligente e cativante, depende do público. Garanto que o público alvo do trabalho de Charles Chaplin era o proletariado, e não a burguesia, que curiosamente detestava os seus filmes.

Estranho, para não dizer discrepante, é ver que crimes de cunho racial eram menores na década de 1980, com personagens como o Mussum na TV dizendo que “…queria morrer preto!” e os direitos da classe operária americana só começaram a ser respeitados pelos idos de 1920, depois das ‘denuncias’ de um certo britânico de bengala, chapéu coco, bigodinho e andar ‘dos pinguins’.

Não concorda com certo tipo de humor, faça como eu, que detesto piadas com grupos étnicos (entretanto adoro piadas envolvendo religião), só consuma o que lhe agradar! Isso quer dizer que você não pode se manifestar, você DEVE se manifestar. Todos queremos ser ouvidos, uns para rir outros para chorar, contudo pense um pouco quando exatamente você protestou porque certa obra te arrancou uma lágrima? Rio muito só de pensar.

Humor politicamente incorreto versus “chá de mordaça” governamental (Parte 1)

Leia também: Humor politicamente incorreto versus “chá de mordaça” governamental (Parte 2).

O que é declaradamente humor pode ser como quiser. Humor, desde de humor ácido e inteligente ou babaca e pastelão. Em quase todo tipo de comédia alguém ou alguma coisa tem que servir de ‘escada’ para a piada. Assim, em se tratando de fazer graça é praticamente impossível não ofender alguém. Seria um problema se humoristas se levassem a sério, o que não acontece.

Na comédia temos o famoso impasse de “pimentas e refresco”. Quando riem da gente, é insulto, quando rimos dos outros é divertido, garanto que os poderosos não acham nada engraçado quando riem deles. O humor feliz ou infelizmente só funciona bem assim, sem mordaças, vide fracassos de esquetes de TV, como Zorra Total, e sucessos do Youtube, como Parafernalha.

Gênios, como Charles Chaplin e Monty Phyton, assim como muitas vertentes do humor britânico (e estranhamente o clássico ‘sabido’ do nordeste, como Pedro Malasartes ou João Grilo), vide o impagável Mister Bean, basicamente usam a autoridade como ‘escada’. É o aparentemente pobre, ignorante e desfavorecido diminuindo o rico, inteligente e civilizado, para fazer rir.

A ofensa do “politicamente correto”

Lembro que a primeira vez que ouvi o termo ‘Politicamente Correto’ foi à época da publicação de uma famigerada cartilha governamental, recheada de termos teoricamente polidos e de uso quase teocraticamente cobrado, quase todos risíveis a meu ver. Termos como: afrodescendente, menor infrator, portador de necessidades especiais, etc.

Por rédeas quase ditatorialmente na comunicação social, condenando o humor extremamente ácido de muitos comediantes logo evitaria quaisquer críticas. Não é de se estranhar, que a exemplo do ditame de que “somos o país do futebol”, este ode também contaminaria o cerne da população de tal modo que cedo ou tarde tudo soaria ofensivo.

Muitas coisas “politicamente corretas” soam como uma ofensa à língua portuguesa, para dizer o mínimo. O politicamente correto virou modelo de algo fechado, com o qual se compactua ou não se participa. Se portar como ‘incorreto’ virou o lugar comum de racistas, intolerantes, “algumacoisafóbicos”. Não havia mais espaço para o, digamos, ser racional.

Patético! É como se humor, e a própria expressão, não fosse mais um entretenimento, e fala, de nicho, como se não tivesse um público alvo em cada uma de suas formas. Sinto informar aos meus ‘amigos do planalto’, mas simplesmente não entro nesse jogo. Se o Brasil manda-lhes ter decoro, quiçá, tomar vergonha na cara, eu também os mandarei… tomar!