Jesus realmente existiu?

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Sim, mas também não. A resolução de um impasse dessas proporções jamais teria uma resposta simples. Lógico, que o homem dotado de dons miraculosos, dito de origem divina, descrito nas escrituras, das Cartas Paulinas aos Atos, é sabidamente contestável, basta aplicar a Navalha de Occam ou apenas o bom senso para discernir que se esse homem existiu então de certo um sem número de outros místicos da época também teriam que ser reais, quanto a personalidade histórica, um homem da Galileia dotado de ideais pouco ortodoxas, revolucionário, e capaz de desestabilizar a ordem, e atrair a ira das autoridades, romanas e judaicas, é bem plausível.

Como o nome Jesus é uma transliteração do nome de um herói judeu ancestral, hoje conhecido graças a narrativa bíblica como Josué, muito popular naquela região, e tendo em vista o quadro de intensas revoluções no período, eventos estes com muito menos controvérsias que a existência do nazareno, e o sem número de “ajustes” documentais (como o que diz respeito do título de nazareno, um tipo unção ritualística, não uma origem) acho mais cabível dizer que não houve um “Jesus”, mas muitos. O que nos restou foi uma coxa de retalhos desses diversos pregadores apocalípticos.

Como era Jesus?

É quase um consenso entre os brasileiros que Jesus era um homem integro, bem apanhado e obstinado. Basta ir a rua e conversar com quaisquer cristãos para se ter toda uma arraigada descrição a cerca de pormenores dentre as mais obscuras do personagem, seus meios político e sociais de convivência, e mesmo de sua própria aparência!

Na verdade o personagem descritos nos evangelhos canônicos (observe que existem muitos detalhes contraditórios apontados nos apócrifos), é tão vago que qualquer atributo pode ser dado a ele sem maiores problemas. A estrutura e a estética da construção de Jesus Nazareno, de seu aspecto a traços intelectuais, lembra (vejam só, “surpresa!”) um mito.

Do mesmo modo que não posso saber com certeza se Hércules tinha ou não barba, ou se Mitra era ou não articulado na fala, nos vendem, por meio da tradição, um Cristo cheio de detalhes que não estão nas escrituras, falo desde a aparência física até a retórica. Quem garante se o personagem não era homossexual, de grande estatura, gago ou até alienígena?

De novo o Zeitgeist? – Ou como são os mitos?

A primeira parte do conspiratório documentário independente conhecido como Zeitgeist, desperta no mínimo uma perturbadora desconfiança por parte de quem o vê uma primeira vez. O texto começa apresentando a figura  do ‘Deus Sol’, adorado em inúmeras civilizações e descrevendo pormenores de suas origens astrológicas associadas principalmente ao solstício de inverno.

O que é realmente perturbador no vídeo é o que se segue, o autor parte enumerando enfaticamente um sem número de ‘nefastas’ coincidências desses reconhecidos deuses solares (do egípcio Horus, passando por Mitra da Pérsia, até a heleno Apolo), como o personagem religioso mais popularmente apregoado dos últimos milênios, Jesus Nazareno.

É inquestionável a influência de centenas de mitos anteriores na construção de novos, como o messias do cristianismo, embora eu discorde da quantidade de coincidências. Algumas constantes apontadas no documentário até ‘incomodam’ ao bom senso, como detalhes a cerca do nascimento, proezas miraculosas realizadas em vida e principalmente sobre morte e ressurreição.

Com um pouco de seriedade e uma rápida pesquisa, conversando com historiadores das áreas em questão descobrimos como esses mitos são construídos, moldados e destruídos no decorrer do tempo por várias civilizações. O que vemos é que não existem verdadeiramente um só versão na descrição de mitos e seus pormenores, Deuses Solares não são uma exceção.

Tendo isso em vista, e que, como todos sabem: “quem conta um conto, aumenta um ponto” temos centenas de versões da mesma história, muitas desencontradas, até contraditórias, e assim sendo também não podemos duvidar que que inúmeras dessas tais coincidências entre os deuses tenham meramente sido encobertas. Se intencionalmente, bom isso é uma outra história.

Jesus e o porque da cruz (Parte 3)

Leia também: Jesus e o porque da cruz (Parte 1) e Jesus e o porque da cruz (Parte 2).

 

Com a suplantação de diversas dessas ideologias sem muito apelo popular (o mitraísmo, que por exemplo, não admitia mulheres) e de crenças discordantes, veio a ascensão do cristianismo primitivo. Isso depois de um tempo despindo-se de uma boa parte suas raízes, e agora pontuado com traços de outras crenças, como a admissão de um deus humanizado, vivo em carne: Iesus Khristós, o tal Jesus da posteridade.

É gritante que essa ideia de um novo deus rivalizando com a figura do imperador, não iria agradar as lideranças romanas. No entanto ela seria determinante para a ‘sincretização’ com a fé vigente. As massas aceitariam muito mais a figura de um mártir e dos eventos construídos (ainda que fantásticos) em torno de seu sacrifício, que a de um deus não personificado, muito menos a de seus imperadores, meramente homens.

Que a cruz era o instrumento maior de tortura e humilhação dos romanos isso não é novidade. Entretanto, usar da cruz como símbolo e pôr seu deus-mártir caindo ante a opressão romana, ressurgindo vitorioso da morte, e ainda prometendo uma vida nova e eterna aos seus seguidores, mediante a negação do governo dos homens (Roma e seu imperador) abraçando o “Reino dos Céus”, era novo e sim revolucionário!

A ideia do Jesus histórico – O problema em sustentar a historicidade de um mito aparente

Evidências de ritos cristãos ‘pré-existentes’ matam a ideia de um Jesus dito histórico. Muitos partem do princípio de que houve um homem, chamado Jesus, nitidamente um reestruturador dos códices judaicos. Infelizmente, não há pistas contundentes desses eventos. A ideia de um deus encarnado só surgiu em meados do século III, com a institucionalização dessas crenças por Roma.

Previamente havia a ritualística de Chrestus e os mitos do herói conquistador Yehoshua, transliterados Cristo e Jesus. Incrível, mas inúmeros foram os cristãos que foram perseguidos por negar a teoria de um Cristo que se fez homem carnal. Tudo parece provir de intenso processo de sincretismo, ora derivada naturalmente do contato entre os povos, ora por mera imposição dos governos.

Se tivermos que sustentar a ideia de um Jesus histórico, o mais ponderado seria admitir que houve uma construção de uma entidade, de caráter ‘histórico’, sobre a histórias de dezenas de outros. O mito do messias descrito como redentor do povo hebraico do domínio assirio, e os diversos candidatos a esse posto entre os séculos I AEC e I EC dão a ideia sustentação mínima.

Dois desses expoentes são Apolônio de Tiana e Simão, O Mago. Historicamente bem mais apanhados que o personagem dos Evangelhos, é descrito, e por diversos autores, como esses homens eram dotados de poderes nitidamente místicos e como, em diversos aspectos, se aparentam de maneira perturbadora com Jesus Cristo, de sua construção até realizações. Coincidência?

Jesus e o porque da cruz (Parte 2)

Leia também: Jesus e o porque da cruz (Parte 1) e Jesus e porque da cruz (Parte 3).

 

Chrestus, chamado Mestre da Justiça, cujo culto data desde séculos antes da EC, é um “deus-mártir-solar”, típica mitologia derivada de diversas tradições anteriores, como persa, grega e principalmente egípcia. Enxertada de vários elementos do platonismo, originários de costumes helenísticos, no entanto com bases judaicas bastante sólidas. Podemos dizer que a crença era basicamente judaísmo não ortodoxo.

Roma nesse ínterim fervilhava de inúmeras novas religiões, com ideologias e ritos dos mais diversos. Ao contrário do que se pensa, os deuses romanos clássicos há muito estavam em processo de mitificação, como sempre ocorre com religiões em que perdemos o interesse. O mitraísmo do deus persa Mitra, o judaísmo do deus hebreu Yahweh, e o ‘cristianismo primitivo’ do deus Chrestus, eram só algumas dessas ideologias.

Não se sabe ao certo o quanto da crença em Chrestus o cristianismo ancestral absorveu ou se o próprio cristianismo não seria a antiga crença sincretizada e remodelada no decorrer dos anos. O problema com essa religião primordialmente era de que esta não se firmava em nada além de ideias e não em eventos. Esse tipo de crença começara a cair descrédito, romanos tinham na figura do imperador deus em pessoa.

Jesus e o porque da cruz (Parte 1)

Leia também: Jesus e o porque da cruz (Parte 2) e Jesus e porque da cruz (Parte 3).

Para entender o porque do personagem central da maior religião monoteísta da atualidade ter que ser sacrificado em uma cruz romana, é preciso despir-se do senso comum e tentar entender com bom senso três conceitos primordiais, mas muito simples: a importância da figura do imperador, a política e a religião do estado romano durante os primeiros séculos da EC, e a estrutura religiosa dos povos essênios.

Primariamente, vamos estabelecer o seguinte: tudo que é descrito aqui é o que temos de fontes históricas confiáveis, e só. Nada de mitos, nada do bizarro senso comum. Caso contrário voltemos aos livros do ensino fundamental de escolas públicas, que descrevem absurdos como o “descobrimento” do Brasil em 1500, e a heroica “declaração de independência” com o grito as margens do riacho Ipiranga em 1822. Isso é sério!

Historicamente não há evidência que sustentem a existência de um Jesus histórico, isso é fato até então! O que temos são as descrições (anedóticas) dos Evangelhos, inúmeros textos de historiadores dos séculos I e II grosseiramente adulterados (vide Flávio Josefo e seu Antiguidades Judaicas), e as típicas confusões sincréticas do personagem com outra divindade muito mais antiga, o popular deus dos essênios, chamado Chrestus.