Jesus e o porque da cruz (Parte 3)

Leia também: Jesus e o porque da cruz (Parte 1) e Jesus e o porque da cruz (Parte 2).

 

Com a suplantação de diversas dessas ideologias sem muito apelo popular (o mitraísmo, que por exemplo, não admitia mulheres) e de crenças discordantes, veio a ascensão do cristianismo primitivo. Isso depois de um tempo despindo-se de uma boa parte suas raízes, e agora pontuado com traços de outras crenças, como a admissão de um deus humanizado, vivo em carne: Iesus Khristós, o tal Jesus da posteridade.

É gritante que essa ideia de um novo deus rivalizando com a figura do imperador, não iria agradar as lideranças romanas. No entanto ela seria determinante para a ‘sincretização’ com a fé vigente. As massas aceitariam muito mais a figura de um mártir e dos eventos construídos (ainda que fantásticos) em torno de seu sacrifício, que a de um deus não personificado, muito menos a de seus imperadores, meramente homens.

Que a cruz era o instrumento maior de tortura e humilhação dos romanos isso não é novidade. Entretanto, usar da cruz como símbolo e pôr seu deus-mártir caindo ante a opressão romana, ressurgindo vitorioso da morte, e ainda prometendo uma vida nova e eterna aos seus seguidores, mediante a negação do governo dos homens (Roma e seu imperador) abraçando o “Reino dos Céus”, era novo e sim revolucionário!

Jesus e o porque da cruz (Parte 2)

Leia também: Jesus e o porque da cruz (Parte 1) e Jesus e porque da cruz (Parte 3).

 

Chrestus, chamado Mestre da Justiça, cujo culto data desde séculos antes da EC, é um “deus-mártir-solar”, típica mitologia derivada de diversas tradições anteriores, como persa, grega e principalmente egípcia. Enxertada de vários elementos do platonismo, originários de costumes helenísticos, no entanto com bases judaicas bastante sólidas. Podemos dizer que a crença era basicamente judaísmo não ortodoxo.

Roma nesse ínterim fervilhava de inúmeras novas religiões, com ideologias e ritos dos mais diversos. Ao contrário do que se pensa, os deuses romanos clássicos há muito estavam em processo de mitificação, como sempre ocorre com religiões em que perdemos o interesse. O mitraísmo do deus persa Mitra, o judaísmo do deus hebreu Yahweh, e o ‘cristianismo primitivo’ do deus Chrestus, eram só algumas dessas ideologias.

Não se sabe ao certo o quanto da crença em Chrestus o cristianismo ancestral absorveu ou se o próprio cristianismo não seria a antiga crença sincretizada e remodelada no decorrer dos anos. O problema com essa religião primordialmente era de que esta não se firmava em nada além de ideias e não em eventos. Esse tipo de crença começara a cair descrédito, romanos tinham na figura do imperador deus em pessoa.

Jesus e o porque da cruz (Parte 1)

Leia também: Jesus e o porque da cruz (Parte 2) e Jesus e porque da cruz (Parte 3).

Para entender o porque do personagem central da maior religião monoteísta da atualidade ter que ser sacrificado em uma cruz romana, é preciso despir-se do senso comum e tentar entender com bom senso três conceitos primordiais, mas muito simples: a importância da figura do imperador, a política e a religião do estado romano durante os primeiros séculos da EC, e a estrutura religiosa dos povos essênios.

Primariamente, vamos estabelecer o seguinte: tudo que é descrito aqui é o que temos de fontes históricas confiáveis, e só. Nada de mitos, nada do bizarro senso comum. Caso contrário voltemos aos livros do ensino fundamental de escolas públicas, que descrevem absurdos como o “descobrimento” do Brasil em 1500, e a heroica “declaração de independência” com o grito as margens do riacho Ipiranga em 1822. Isso é sério!

Historicamente não há evidência que sustentem a existência de um Jesus histórico, isso é fato até então! O que temos são as descrições (anedóticas) dos Evangelhos, inúmeros textos de historiadores dos séculos I e II grosseiramente adulterados (vide Flávio Josefo e seu Antiguidades Judaicas), e as típicas confusões sincréticas do personagem com outra divindade muito mais antiga, o popular deus dos essênios, chamado Chrestus.