Como o vento

Deus existe, é um ente vivo, sensível para aqueles que se propõem a aceitá-lo, segui-lo. Deus é como o vento: não se pode ver o ar em movimento, todavia seu movimento é perfeitamente sensível, seus efeitos observáveis, mensuráveis. Temos aqui uma comparação deveras exacerbada.

Claro, é possível descrever, analisar e mensurar características de algo material (como o ar, do exemplo acima), presente no mundo natural, por meio da observação, e uns poucos testes simples. Assim trabalha a própria Ciência e seu método. O resultado disso é nosso conhecimento.

Já Deus, (ao menos o deus descrito no exemplo) é descrito pelos defensores da fé como insondável, intangível, um ente sobrenatural, fora da realidade palpável. É dito que Deus não pode, não apenas ser visto em todo o espectro, como também de ser detectado. De fato.

Seus ditos efeitos se resumem as tais experiências pessoais, sim o que sobra é o mero argumento anedótico. Os métodos para isso, óbvio, são descritos pelos líderes religiosos, conforme os convém, segundo seus ideais. Seguir a Deus, senti-lo, se resume a isso: obedecer apedeutas.

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Deus ‘escapa’ a Ciência? (Parte 2)

Leia também: Deus ‘escapa’ a Ciência? (Parte 1).

Os elementos que basicamente costumo separar para essa conjectura primariamente são: definição de entidade, de ‘ser’, a base da consciência em si; propósito inerente a uma criação não condicionada, ou ‘gênesis racional’; racionalização de amostragem, ou observação de interferência na ‘fisics’. É muito fácil dizer que: “Deus escapa ao método cientifico”, sem ao menos determinar que tipo de deidade está aí para se debater coerentemente.

Um deus, como o do deísmo, por exemplo, parcialmente me ‘escapa’, pois mesmo determinado como uma entidade consciente, notoriamente não há intervencionismo de sua parte. Muito embora ainda caia na ‘malha’ do método cientifico de avaliação, de sua possível existência, aqui descrito, por sua aparente carência de propósito na sua criação, a menos que este não se importe nem um pouco com logística ou gerência.

Entretanto deuses pessoais, determinados por crenças institucionalizadas ou não, que decorrem de uma extensa gama de derivações sincréticas, estes, assim como toda a mitologia que os cercam caem por terra com um mero vislumbrar das contradições de sua própria construção. Assim, se mora no céu, voa; se ouve preces, então viola o livre arbítrio; se é “Pai”, tem pênis.

Deus ‘escapa’ a Ciência? (Parte 1)

Leia também: Deus ‘escapa’ a Ciência? (Parte 2).

É prosaico ouvir construções filosóficas vãs nesse sentido, a meu ver de uma desonestidade sem tamanho. Pôr em pé de proporção evidência e existência, e pior, sem ao menos previamente determinar o que está sendo posto em estudo e quais características devem ser vistas em pauta, uma a uma, para ai sim, determinar os métodos mais condizentes, é pura ignorância, quiçá, um desserviço da parte de quem pende a hipocrisia.

Como mensurar a perfeição? Há coisas mais ou menos perfeitas por definição? Há graus observáveis para essa comparação? Posso me afirmar como pobre, ganhando dois salários mínimos ou meu amigo que mora na Alemanha pode dizer que é rico porque recebe € 550,00 ao término de cada mês? Claro, existe um grosseiro erro nessas construções: É a comparação sem parâmetros!

Só existe um meio de atribuir adjetivos de comparação, estabelecendo parâmetros, ‘isolando variáveis’, e qualquer semelhança com Ciência não é coincidência. Isolados os elementos de análise, aplicando-se o método e observando seus resultados, posso no mínimo dar graus de seguridade para praticamente toda ideia, mesmo: “Deuses, provavelmente, não existem!”.

A hipótese deísta

Deísmo é uma vertente ideológica moderna de crença na existência de um deus. Mais comummente adotada por acadêmicos e intelectuais que ainda tem uma ou outra remanescência que se possa determinar como de procedência ‘religiosa’, entretanto desprovida de toda a sorte de diretrizes derivadas de uma ou outra mitologia. Mitologia essa que a construção do mote do Deísmo também não o irá apresentar.

Concordo com a posição do Deísmo como tentativa de racionalizar a crença em uma entidade criadora e mantenedora, em em vários pontos, principalmente o da não interposição posterior. Em verdade, no que concerne ao poderio e a imparcialidade da análise científica, aplicada em quaisquer eventos, veremos que o problema não está na existência ou não de este ou aquele deus, mais no naturalismo, vide Karl Popper.

Jeová, Jesus, Alá ou quaisquer outros, poderiam plenamente ‘existir’, (devidamente desprovidos de sua extensa mitologia, é claro) sincretizado-se a construções deístas – “Já que havendo uma causa primeva e esta seria a divindade”, procrastinam. Ótima a construção! No entanto, ao atribuir ao nosso universo conhecido uma causa não causada, eterna, (senciente ou não) temos obviamente aí o empasse.

Das duas uma: Ou entramos sumariamente em uma série de causas que terminam em outras causas, ‘ad infinitum’, ou encoramos em falácia por argumento especial. Um ser que causa precisaria ser causado, e ainda que não, transborda a carência de propósito na suposta ‘construção senciente’, a hipótese um universo sincronizado, cai por terra em uma mundana poça de água. Saudoso Sir Douglas Adams!

Outro mote bastante prosaico e quase dogmático é o: “A ausência de evidência não é evidência de ausência”. Sobre o argumento cíclico de ausência e evidência, não há como atribuir a quaisquer situações o mesmo peso. Posso dizer que apesar de não haver evidências de seres vivos em outra parte do cosmo devido a pesquisa ainda rasteira, mas não posso descartar a possibilidade, visto que temos seres vivos e aqui.

Exemplares esses que podem ser observados, estudados e testados, uma a uma, e por diversos pares, mérito este que a deidade deísta não tem. Assim como, mesmo em sua complexidade, os esses seres vivos compartilhar elementos abundantes em toda a vastidão do universo (ainda que sob certas condições mais raras), pior para a contra-argumentação. Assim sendo, o deus continua… uma ideia.