Porque odeiam ateus?

Certa vez lendo o trabalho da socióloga Silvia Dias, professora de sociologia da FGV (Fundação Getúlio Vargas), em seu livro Rituais de Sofrimento, onde esta aponta o quanto o Reality Shows se aproximam de uma espécie de rito de tortura, pude traçar um interessante paralelo com o expurgo social de pessoas que manifestam publicamente esse seu desapego às religiões.

Ao longo do seu estudo a pesquisadora percebe que mesmo com todos os abusos aos quais os participantes dessas produções são expostos suas diretrizes se permeiam aos conceitos prévios dos indivíduos ao ponto de se sobrepor, criando ali um círculo social tecnicamente sólido o suficiente para não ser questionado, até mesmo para ser defendido por seus adeptos.

Fica ainda mais claro quando é punido, odiado, ou mesmo digno de perseguição, ainda que momentânea, aquele dentre os membros do Reality Show que viola os preceitos com os quais teria previamente concordado, mas em se tratando de um participante que simplesmente abandona o programa tudo muda, e para pior, indubitavelmente se tornará um pária.

Não é raro a memória popular ter nítida a personagem de um ou outro dentre os outrora participantes de uma dessas atrações que se portara de maneira questionável, até desonesta ou desprezível, contudo quando se procura por qualquer coisa relacionada aos seus desistentes praticamente nada vem à tona, nem mesmo os seus nomes, estes são esquecidos, (tem que ser!).

Para maior parte da sociedade, existindo um prévio acordo de comportamento. Todos sem exceção deverão em maior ou menor grau de comprometimento aceitar seus termos e obedecer seus preceitos. Todo aquele que questiona o acordo acaba em um certo momento expondo os erros existentes ali, e pior, que aquele sistema não é o único, há um sem número de alternativas.

E assim como acontece em um sem número de atividades desse tipo, desde brincadeiras as práticas esportivas, é permissível que se discorde, trapaceei, até que se pratique de outra maneira a atividade, mesmo estando em oposição, no entanto não se permite socialmente que qualquer um opte por simplesmente não participar, pois isso expõe o quão tolos todos ali podem ser(!).

Contra Thomas Hobbs – Ou porque trocar a liberdade pela simples sensação de segurança é estar preso de antemão a própria ignorância

Thomas Hobbs tem um trabalho indiscutivelmente rico, reconheço, mas não compactuo com sua ideia do “Estado Natural do Ser”. No qual o filosofo aponta que existe o cerne na natureza do homem, a maldade(!).

Sendo, segundo o autor, meramente o medo uns dos outros advindo do contato, da proximidade em que vivemos, o que nos leva a abir mão de coisas como nossas liberdades individuais em troca de proteção.

De fato, o medo é poderoso, deveras. Mas biologicamente este é então somente uma ferramenta, um mecanismo de defesa, derivado de nossa própria evolução. E sociais que somos isso se estende a tudo que nos cerca.

Assim, é compreensível que por garantia da seguridade costumamos fazer essa escolha. Em contrapartida a evolução nos deu meios para nos desvencilhar da natureza, a ponto de ter o medo como um aliado ao invés.

Bem e mal são geralmente relativos. Buscamos sobreviver apenas e a vida, em seu sentido tão romantizado, se sintetiza na fuga das dores e na busca pelo prazer, que advêm de fatores diversos também por sua vez.

O tema da “total liberdade” já foi explorada até pela cultura pop. Em filmes como Uma Noite de Crime tudo é falível no cerne. O próprio filme mostra, ainda que pobremente, que não há patamar de igualdade.

Tudo não passaria de um safári para elites, limpeza social. Econômica e politicamente falando a coisa também não se sustenta. Quem impediria que esse “Carnaval” não fosse além da Quarta-Feira de Cinzas?

Ateus versus agnósticos. Ou, Como não passar vergonha apontando divergências onde estas definitivamente não existem.

Diante de uma crescente onda de desinformação que vejo, só esclarecendo, atualmente os termos:  agnosticismo e gnosticismo são contrários e dizem respeito a saber sim ou não algo, independente do que seja. Do mesmo modo, Ateísmo e teísmo também só que dizem respeito a crença ou não em deuses, e SOMENTE em deuses. Ou seja, uma coisa não é contrariada pela outra.

Dessa maneira é perfeitamente possível si dizer, por exemplo, um ateu agnóstico, que não acredita em deuses mas não descarta a possibilidade, ou um teísta gnóstico, que acredita irrevogavelmente em deuses. Em suma: ser agnóstico no que diz respeito a deuses não descarta uma postura ateísta ou mesmo teísta. Distorcer a terminologia sim é deveras contraproducente!

Trump presidente. E agora?

Passada a última eleição, e tendo em vista toda a campanha para presidência nos EUA (a mais bizarra que já pude acompanhar) acho que boa parte dos críticos do ‘maluco do topete’ não temem exatamente pelo que este tem capacidade de realizar, isso de represálias e boicotes, de cunho racista, nacionalista e conservador, até a ousados empreendimentos na construção civil na fronteira. Não, mas pelo que este não pode.

Creio que muitos não tem ideia de quais são as atribuições de um presidente e até onde se estendem seus poderes, que como é sabido dependem de amplo apoio legislativo (como em toda democracia presidencialista). Tendo em vista sua inexperiência, pouca representatividade e postura política figurativas, até caricatas, a meu ver teremos na verdade anos de um executivo vazio, inexpressivo e sem qualquer relevância nos EUA.